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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Porco e Pimenta: Cosmonauta



Cosmonauta

"Dez!". Pelo objeto que me incomodava as orelhas, ouvia a contagem regressiva mais tensa de toda minha vida, estava eu sentado com os meus vinte e poucos anos, e da janela pessoas acenavam, eu sabia que poderia ser a ultima vez que as veria ali. "Nove!" Me passava na cabeça meus momentos mais dificeis pra sentar naquela cadeira, do meu lado, meu amigo estava chorando. "Oito!". Pela janelinha eu via a minha mãe, e desejava que meu pai estivesse la para me ver, talvez eu o encontrasse, estava indo pro céu. "Sete!" . Todos os botões e todas as funções me davam dor-de-cabeça, o grande e vermelho na emergência, eu sempre ouvira isso nos filmes. "Seis!". Eu sei que eles sentiram a minha falta, sem comunicação terão que ter mais fé em qualquer-coisa. "Cinco!". Não via a hora de sair dali. "Quatro!". O tempo sempre passa mais devagar quanto pensamos nele. "Três!" . Em nome do pai, do filho e do espírito-santo. "Dois!". Amém. "Um!". Adeus pessoas, me desejem Boa Sorte. "Zero!". Foi nesse momento que ouvi o barulho que mais esperei na vida, o fogo saiu da cauda do foguete de modo que fez as coisas vibrarem dentro de mim e talvez do meus parceiro tambem, aos poucos fomos ganhando altura, e quando menos percebi, ja não via mais minha mãe, nem mais ninguem, a pressão em mim parecia me sufocar, e precisei fechar os olhos para não ficar mais nervoso, ainda subindo, sem limites, saímos da atmosfera. Agora tudo mais leve, com excessão do peso na minha conciência, mas eu estava feliz, realmente feliz, teria tudo dado certo? era preciso comunicação com a base, na terra. No instante em que soltei o cinto-de-decolagem, meu sonho de criança se realizou, estava flutuando, era como se os meus inconstantes 70 Kg não importavam mais, eu podia pular e nunca mais voltar ao chão, e no espaço era diferente das máquinas de simulação, ali era real, ali tinha paisagem, e pela primeira vez, ali, de ponta-cabeça no espaço, eu à vi. Linda e gigante, a sua cor pulsante fazia meu coração pulsar junto, a sua imensidão azul me remetia ao tamanho do meu orgulho, ao tamanho da minha saudade, nunca vira imagem tão bonita, o sentimento de estar ali, à vendo, me fez lembrar de minha mãe, e perceber que aquela esfera imensa guardava por mim um carinho, quase que materno, que estava sendo esquecido. Então eu senti um turbilhão de coisas estranhas, sensação parecida à da decolagem, e quando menos percebi, tudo estava em chamas, inclusive meu parceiro, lembrei do botão vermelho, e corri (ainda flutuando) para aperta-lo, ele estava quente, tudo estava errado e se desfazendo, fui empurrado pra fora do foguete. No vácuo, contraditóriamente, minha cabeça nunca esteve tão cheia, ainda via a mãe-Terra, era impossivel não percebe-la, e um estranho medo de altura se apossou de mim, iria morrer. Com a certeza da morte, na minha segunda contagem regressiva. "Dez!". Eu tirei o capacete, iria morrer. "Nove!". A agonia de estar sem ar foi substituida pela alegria de morrer no lugar onde eu mais gostaria de morrer. "Oito!". Meu parceiro ainda estava em chamas, e nada que eu fizesse o ajudaria. "Sete!". A agonia de estar sem ar voltou, meu pulmões agora pediam esmola. "Seis!" Eu me mexia no vácuo, flutuando feito uma pena no ar, era deliciosamente desconfortável. "Cinco!". meus sentidos agora ja estavam perturbados. "Quatro!". A Terra acenava pra mim. "Três!". Nadei, nadei, e morri na praia. "Dois!". Por mais que eu grite, o som não se propaga no vácuo. "Um!". Flutuando, feito eu, eu à vi chegar, lentamente, gelada, me abraçando e me beijando, sugando meu ar, suas mãos brancas, fecharam os meus olhos, seu corpo escorregadio estava sobre e sob o meu, e um fio de medo, de desespero, de prazer correu do alto da minha cabeça até meus pés, por fim levando minha vida. "Zero!"


• Gente, voltei a postar no blog, que diga-se de passagem, está cheio de teias de aranhas e pó para todo o lado, depois da faxina posto outra coisa. Esse meu texto é antigo e postei porque achei que seria legal te-lo por aqui.

xoxo.
Gossip Pig and Pepper

domingo, 4 de maio de 2008

Porco e Pimenta: Mentiras que a escola conta



A Virgem dos lábios de mel e cabelos mais pretos que as asas da graúna não me interessa, nem a traição de Capitú, e nem nada, e duvido que interessasse ao Alencar ou ao Machado, toda essa discussão não leva a nada, o escritor morreu, e penso que nem ele imaginava, ao menos, que seu livro traria tamanho bafafá.

Eu tambem não gosto, se tratando de literatura, de como os estudiosos da área gostam de achar significados nas obras, significados esses que muitas vezes os autores nem sabiam ter dado, esse costume de magnificar uma obra de arte quando na verdade ela é simples e sem duplos sentidos que é um horror, Oswald escreve 'bananas' num muro e todo mundo bate palmas, seu vizinho faz o mesmo e todo mundo taca pedras, convenhamos, Oswald não seria um gênio se escrevesse 'bananas' num muro, e nem seu vizinho, e é nesse ponto que os estudiosos literários erram.

Tambem não acredito na super-duper-mega-divisão-do-trabalho, e não estou falando da revolução industrial, falo da Mitocôndria, do Complexo de Golgi, dos lisossomos e ribossomos, dos centríolos e essas coisas, quem realmente acredita que essas organelas, dentro de uma célula (que já não é um lugar tão amplo) trabalham feito condenados pelo funcionamento da célula, e essa pelo organismo todo. Eu não sou uma fábrica, poxa!

E então eu me pergunto: Eu sou uma tapado por duvidar dessas coisas?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Porco e Pimenta : O Apanhador de Respostas



O Apanhador de Respostas


O apanhador de respostas estava sentado na cadeira-de-balanço de sua varanda, a paisagem bucólica da horta de perguntas, as quais ele mesmo cultivara, estava deixando-o com sono. Sua longa barba escorria de sua boca, como se a tivesse cuspido, e a sua cabeça era cortada, um corte reto, d'aqueles que parecem ter sido feitos por uma grande navalha, de orelha a orelha, repita o caminho, via-se sua cabeça, onde um grande misto de memórias e células faziam algo parecido com um espaguete.

Era tempo de colheita, todas as dúvidas plantadas cresceram, e deram boas frutas-perguntífras, cheias de respostas, e sementes-de-novas-dúvidas.

O apanhador de respostas colhia os frutos para uso próprio, comia um a um, e ia se deliciando com cada fruto maduro, e cada vez ficava mais triste, pois os frutos enchiam sua boca de sementes, e uma a uma eram cuspidas numa bacia, sementes de todas as cores e tamanho:

- Olhe! Aquela amarelinha tem formato de um bibelô, e aquela outra ali ao lado, mais se parece com uma pipoca-murcha. - Refletia o velho babão.

Era tempo de plantio, e o apanhador de respostas se levantara da sua cadeira com muito esforço e cuidado, não deixando sua meia-cabeça vasar, ereto se dirigia ao campo, que nú em terra, fervia de tão fértil, e como um polvo de pêlos, sua longa barba catava as sementes, que guardadas na cabeça, iam para a terra, gerar novos frutos.

O Apanhador de Respostas acabou seu trabalho pela aquela temporada, e agora esperava a vida passar na sua cadeira de balanço, esperava a nova colheita de respostas, com a nova remessa de perguntas.
Lucas Careli

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Porco e Pimenta: O amor é óbvio



O amor é óbvio


Meu coração bombeia rapidamente, e eu sinto uma série de acidentes no meu organismo, que segundos atrás funcionavam de acordo com o que nasceram pra fazer.
Meu pulmão que sempre respirara tranquilo agora parece com medo, e a frequencia de intervalos de entrada e saida de ar é muito mais curta, o ar parece mais pesado, e mais furioso, o que antes era calmaria agora é tempestade.
Meu fígado, que não serve pra quase nada aparentemente mostra as caras, eu consigo sentir meu fígado sem ao menos toca-lo com as mãos, por cima desse grande lençol chamado pele, ele está ali, semi-latejando, parece maior, e todas as funções parecem estar erradas, meu fígado parece respirar, ou digerir.
O meu estômago resolve que a solução do problema seria derramar litros e litros de ácido-clorídrico dentro dele mesmo, talvez para queimar toda a ansiedade e o medo, o ácido age como anciedadecida, adrelaninacida, mata as borboletas do meu estômago.
O coração é um orgão estúpido, e nunca pareceu tão apressado, seu modo ridiculo de demostrar suas soluções é bombeando mais e mais sangue, minhas veias agora são pistas de fórmula 1, ou fórmula 1.000 ou stock-car (seja la o que isso for), 'os glóbulos vermelhos estão na frente', 'quem dá a volta completa?', meu plasma é combustível, e meus glóbulos bicolores apostam corridas, o prêmio é um grande nada.
E minhas glândulas sudoríferas? 'Ai!' As glândulas sudoríferas liberam àgua mais do que o necessário, que chega a escorrer pelo meu rosto, contornando minha face, descendo no meu queixo, e caindo no chão, uma parte física minha está no chão, junto com toda a parte emocional.
Meus sentidos estão mais aguçados, eu posso enganar meu olhos, meu ouvidos, posso fechar a boca pra toda e qualquer paladar, e fechar meu corpo de forma que fico intocável, mas meu olfato me condena, não posso parar de cheirar assim, o seu cheiro forte entra no meu nariz, e é ele que provoca as alterações todas, deixam meus orgãos loucos, não acredito que você me faz sentir assim, mas você faz.
Algumas coisas a gente percebe só sentindo, sem razão, é mágica as coisas que seu cheiro podem provocar em mim, e a mágica vem expontânea, sem palavras, sem encatamentos, acontece somente quando divido meu espaço com seu espaço, e é incrível como posso sentir seu cheiro à distancia, e como as vezes ele me vem do nada a mente, você não precisa estar presente, mas o seu cheiro está lá, despertando parte do meu cérebro doido o que é óbvio, o amor é óbvio.

Eu não posso acreditar, mas posso sentir.


talvez seja minha primeira demonstração de amor, e provavelmente a ultima que vocês me veram postando por aqui, Porco e Pimenta não é confessionário, é uma excessão a regra. na verdade eu sou durão! (risos)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Porco e Pimenta : Berenice continuação.


acho que esse desenhou superou o primeiro
BERENICE

Berenice acordou com o pé direito, e disse bom-dia pra todos na sua casa, essa é uma bela ocasião pra mostrar a familia com quem ela convive, e ama. Levantou, como ja disse, de pé direito, e meio acordada meia dormindo foi indo pro banheiro, foi no corredor que se deu com o primeiro bom-dia, um bom-dia fedendo à sono, o cheiro do sono saia por todas as partes do seu irmão, mais velho, seus cabelos também eram castanhos e ele era consideravelmente parecido com ela, mais alto em dez centímetros mais ou menos, tambem meio acordado meio dormindo, não teve a sorte da irmã, acordara de pé esquerdo, e isso lhe dera dois olhos bem castanhos contornados com duas grandes camadas de pele escurecida, as olheiras do irmão o faziam parecer um zumbi, ele dormira de cueca, mas agora ja havia posto um uniforme amarrotado, de cor beje, o mesmo que Berenice usava na escola, seu irmão era três séries mais avançado, porém quatro anos mais velho, o repeteco no primeiro ano o deixara mais chato que de costume, e Berenice ainda conseguia ouvir o dia que sua casa explodiu em gritos quando chegou a notícia.

Berenice, num camisetão-velho-pijama deixou o irmão seguir seu rumo, e entrou no banheiro, se vira pela primeira vez naquele dia, ela estava não muito diferente do irmão, não tinha olheiras, mas aquela sujeira acumulado de sono residia nos seus olhos, e foram tiradas logo que vistas, pareciam mais manteiga que outra coisa, e se existe uma coisa que Berenice não come é manteiga, manteiga tem gosto de gordura, e é feito com leite, não, manteiga é o fim-da-picada pra Berenice. Sentada no vaso, Berenice ia pentiando os cabelos enquanto fazia xixi, era gostoso fazer xixi pela manhã, pentiando os cabelos, isso se tornara quase que um ritual para a menina, só que menos badalado. Pois levantou-se, e fez toda a higienação necessária do momento, jogou um pouco de agua do rosto, um pouco de pasta na escova, um pouco de escova nos dentes, secou a mão rapidamente, e deixou o restinho de umidez das mãos para abaixar os fios que estavam persistindo em ficar de pé no seu cabelo.

Ao sair do banheiro, três vezes mais apresentável do que quando entrou nele, foi andando pra sala, onde era tomado um rapido café, ninguem se sentava, só Berenice, e então viu sua mãe na cozinha, bem melhor preparada que ela propria, a mamãe parecia uma bolacha waffle, era magra, branca, tinha cabelos presos num alto rabo-de-cavalo, e estava vestida de tom pastel, a mamãe de Berenice trabalhava com os números, e nunca se esquecia deles, sabia muito bem que no café-da-manhã, eram duas xícaras, pra ela e pro marido, duas tigelas, pros filhos, o café era um-quarto de agua, quatro de café, duas de açúcar, e a água não demorava mais que dois minutos pra ferver, e na tigela, era cereal para o Donatello, e granola para a Bê. Naquele dia, tudo estava bem, e todos os números estavam onde deviam estar.

Bê, como sempre, sentava na mesa, o irmão comia seu cereal sentado no sofá cor-pastel de sua casa, assistindo a mínima porção que ele podia assistir da MTV logo de manhã, um dos maiores passatempos de Donatello, era a MTV, e ele sonhava em ser um Vj, as vezes Berenice ouvia seu irmão apresentando os clipes do momento durante o banho, ou deitado na cama antes de dormir, ela gostava do irmão de uma maneira estranha, mesmo que sem assuntos em comum, ela sabia que o irmão a protegeria de tudo. Donatello achava Berenice doida de tudo.

Então, Berenice na mesa, Donatello no sofá, Flor na cozinha, tudo estava tão vazio, faltava o ultimo elemento, e esse veio engravatado, e seus cabelos levemente grizalhos reluziam com a luz-da-manhã.
- Seu café amor - veio a mamãe, meio na vida meio nos números com duas xícaras de café preto na mão - Estamos um pouco atrasados, se apresse com esse copo, e pegue o outro você mesmo - pausa pra beber café - você tem oito minutos contados.
- Bom dia meu amor - um beijo na testa, um sorriso de lado.

O papai sempre parecia pensativo, Berenice nunca o vira falar demais na vida, mas sabia que seu pensamento era uma grande locomotiva de idéias, e que o papai era muito criativo, seu trabalho era fazer propagandas para a TV, e ele era bom nisso, havia feito algumas propagandas que passavam no horário nobre, e uma porção de propagandas que passavam de madrugada, nessas ultimas, Berenice e ele ficavam acordados até bem noite, para ver passar pela primeira vez, e se um dormisse era obrigação do outro acordar, com punição de pena-de-morte para quem não o fizesse, Berenice ficava meio tensa, mas sabia que mesmo que não o acordasse, o papai seria bondoso, a mataria rápido e sem dor.

O papai era responsável pelos nomes dos filhos, mamãe queria dar ao filho, Felipe, e à filha, Camila, e papai dissera que nomes convencionais atraía uma vida convencional, o papai era muito inteligente, mas ele mesmo chamava João.

Todos eles, no horário certo, entraram no carro, mamãe dirigia, era um carro apenas na familia, primeiro deixava o papai, na empresa, que ficava consideravelmente perto da casa, depois deixava Berenice e Donatello no colégio, onde milhares de pessoas de todos os tamanhos e larguras usavam roupas iguais, e andavam de modo diferente.
- Berenice, não se esqueça de perguntar aquilo que eu disse pra você perguntar - disse a mamãe quando abaixou o vidro do passageiro para ver a filha.
- Do que está falando, mamãe? - esse foi Donatello curioso.
- Assunto meu e da Bê, Dona Curiosidade. - a mamãe o chamava assim, Donatello realmente estrapolava as vezes, só as vezes.
- Tudo bem mamãe - disse Berenice mais pra lá do que pra cá, enquanto adentrava no colégio.

[Sim, eu continuei Berenice (\o/) e a inspiração veio do nada, olhando pr'o meu uniforme, que é preto, não beje. acho que ficou bom, estou orgulhoso. Hopje é meu aniversário de 17 anos]

[ ja disse, e repito, quem copiar e ganhar muito dinheiro com isso, é bobo e sem criatividade]

[só por curiosidade, eu ACHO que o Donatello, hoje apresentado, tem 17-quase-18, e que a Berenice tem 13-quase-14, tenho que ver a lógica no texto e me lembrar se falei alguma coisa sobre a idade dela na primeira parte, acho que é isso]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Porco e Pimenta : A Sala Polar • eliminado



No confessionário:

Hoje meu voto vai para o "A Sala Polar", Bial.
Não é que eu não goste dele, mas é que ele nunca ajuda nos afazeres da casa, e tambem porque na minha escala de afinidade ele foi o texto que eu demorei mais para me aproximar, pegar intimidade, entende?
Isso não significa que eu não goste dele, ele é um ótimo texto, e tenho certeza que lá fora poderá fazer muita fama na Playboy, mas por falta de outros textos para serem votados, vou ter que votar nele mesmo. Justificado, Bial?
Ok então. Beijo mãe, saudades.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Porco e Pimenta : VAPC


VIDAS ANÔNIMAS E PENSAMENTOS CORRETOS

Naquela cidade, eram mundos diferentes, eram histórias sem fim se cruzando no sinal vermelho, eram outras histórias sem fim que estavam no trânsito, as histórias sem fim tinham pernas apressadas, e suas caretas demostravam pressa, o organismo era movido à pressa.

O dia está cinza em São Paulo, como sempre esteve, e é na rua mais importante que essa história começa, o barulho da metrópole enchia o ambiente de música barulhenta, música essa que para os habitantes d'aquele lugar era comum aos ouvidos, todas as calças sociais e as maletas, pretas, se cumprimentavam num rápido passar, sem se tocar, apenas o vento feito pela pressa se tocava, e o cheiro, o cheiro de cada um naquele grande formigueiro, o cheiro podia ser pego no ar de vez em quando, eram cheiros corporais, ou dior's ou boticários, não eram fortes o bastante para serem perceptíveis, mas estavam lá, sem dúvida nenhuma, estavam.

Àquele projeto de adulto caminhava, apressadamente, pela Avenida Paulista, não via paisagem, não notava nada além de seus afazeres, e falava pensava em seu miolos em números, ele só pensava em números, em somas, em ganhos e perdas. Seu cabelo cheirava à gel, suas mãos tambem, vestia um terno bem passado, e uma camisa bem engomada, estava descorfotável, o sapato apertava seus dedos, que nessa altura do campeonato mais pareciam dados, sem as bolinhas que indicavam números, essas, certamente estavam em seus miolos, muito próximas do cifrão. Ele não tinha filhos, e nem ao menos uma acompanhante, a familia em que crescera não o dava um horizonte tão amplo, se jogou no mundo cedo, tinha orgulho de seu caminho que tanto apertava seus dedos, e saudade dos tempos do futebol na rua de terra, estava alí, não havia mais praia, nem terra, e o sol parecia não ser o mesmo sol que antes esquentava sua pele de uma forma gostosa, agora, quando aparecia, queimava parte do seu cucuruto, que começava a aparecer a medida que seus cabelos começaram a encalvecer.

A sua imagem refletia nas vitrines, ele podia ver, de vez em quando tirava um pequeno pente do bolso do paletó e penteava seus cabelos em frente à um vidro insufilmado de qualquer carro estacionado que encontrava pelo caminho, esses que na maioria eram prata, isso sempre o fazia parar de pensar nos números, como têm carros prata pela rua, e ele estava certo.

Dentro de um carro prata, estava uma senhora, no transito, via pelo retrovisor a imagem de suas rugas, e de suas pálpebras, que agora estavam mais caidas do que de costume estariam, a velhice causava nela uma sensação estranha, um medo da morte, a morte havia levado seu marido faz algum tempo, e sua casa agora era bem mais fria, seus grandes móveis já não tinham mais plena utilidade, e não havia mais o porque de levantar cedo pra fazer café, ou de passar um batom pro dia-a-dia, mas ela o fazia.

Seus dedos no volante pareciam ter sido mergulhados em água por um bom tempo, eram enrugados e magros, suas unhas rosa-bem-clarinho refletiam a cor opaca da cidade, a cor opaca da sua vida desde que o marido havia falecido, seus filhos e netos vinham visita-la de vez em quando, ir à igreja funcionava como um relaxamento, mas as palavras que saiam da boca do profeta já não tinham mais o mesmo ardor, a vida perdeu a graça sem o marido, as lágrimas velhas faziam transbordar seus rios de rugas, seus pés-de-galinha, tudo era tristesa, tudo era rosa-bem-clarinho, até seu café ficara mais amargo, ela pensava, a vida sem ele não tem sentido, e ela estava certa.

No quintal de casa, uma menina brincava com suas amigas, era uma grande bacia rosa, cheia de água, e varias bonecas peladas, loiras, que se divertiam num belo dia de mergulho no Estados Unidos, depois iriam ao shopping, Rebecca compraria uma nova saia, e Barbara um oculos branco, um que pareça com os óculos da Sharpay do High School Musical, dizia a dona da mão que a segurava.

Uma das crianças, a negra, não estava tão animada com a brincadeira, se sentia um pouco confusa de não ter nenhuma negra nas piscinas do Estados Unidos, por outro lado, não ter nenhuma ruiva, nem morena a confortava, Leticia, havia cansado de tomar banho de piscina, e tomava sol nua, numa toalha de rosto, talvez na tentativa de enegrecer um pouquinho, o fato era que não havia sol naquele dia nos Estados Unidos, era tudo muito cinza, então as meninas emprovisaram uma lanterna-de-mesa-sol, tirada da escrivaninha do pai de uma delas.

A menina negra se levanta, e com ela, Leticia, da alguns passos em uma direção premeditada e mergulha Leticia na churrasqueira, onde um banho de carvão deixa empretecida a boneca californiana, levanta a boneca, e ela se encontra num estado deplorável, certamente negra, a menina pensa, agora está mais parecida comigo, e ela estava certa. Todos sempre estão certos do que pensam.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Porco e Pimenta : Drosófilas



Drosófilas





- Pobre drosófila, morreu muito cedo, considerando que sua vida só duraria 24 horas, veio morrer na décima-quinta, culpa dos humanos, e seus inseticidas - dizia o padre das moscas, no enterro da drosófila, que por intermédio humano, veio a falecer.

A familia chorava a perda, e os amigos vinham prestar serviços, servir fungos, e coisas do tipo, aperitivos da morte, afinal, a morte não é uma coisa fácil de lhe dar. Era estranho pensar que o padre só tinha mais 6 horas de vida, e que se o enterro demorasse demais, o padre morria e era enterrado junto, assim como todos os familiares mais próximos da morte.

O tempo de uma mosca não é tão longo, comparado ao dos humanos, mas é aproveitável da mesma forma, considerando que poucas horas após nascer, elas ja precisam procriar, são anos e anos de experiencia tomados, como suco, em poucas horas de vida, inteligentes, as drosófilas.

- Alguem quer dar alguma palavrinha? - foi o padre que falou outra vez, seus olhos eram vermelhos e espelhados como os da maioria alí, olhos brancos e pretos são determinados pelo alelo 'y' como todos sabem.

Foi então que o pai da falecida levantou voô d'onde estava, e ao pousar na banana morreu. A familia então começou a chorar mais e mais, e cada vez mais que o segundo passado, o padre recitou de novo um poema fúnebre, e drosófilas coroinhas arrumaram o corpo do novo falecido.

- Onde está a morta? - disse uma drosófila de 16 minutos de vida, numa voz fina porem articulada e audível.

Todos dirigiram os olhos grandes e espelhados para a banana-caixão, e logo depois, para um grupo de formigas que, carregando a morta no colo, corriam pelo mármore.

- Corram! Corram! elas nos perceberam - disse a formiga carnívora

Foi nesse momento que ouviu-se um grito na multidão fúnebre, todas as drosófilas começaram a levantar voô, arregaçando as mangas, prontas para o resgate da falecida, e as formigas sequestradoras começaram a marchar mais rápidamente, tropeçando nas pernas.

- Devolvam-na! que falta de respeito - foram as ultimas palavras de uma drosófila, que logo após caiu morta no chão, algumas outras drosófilas, parentes do novo morto baixaram voô e deram assistencia ao corpo, fez o mesmo o padre, e os coroinhas, que não viam a hora do padre morrer, para serem eleitos padres, afinal, com tantas mortes em tão pouco tempo, ser padre é a profissão mais digna entre as drosófilas.

As formigas, com o corpo da morta nas costas, discutiam entre si que caminho pegar, rodavam em círculos, seguindo o rastro de outras formigas, ja haviam ultrapassado o mármore, e agora estavam na pia de inóx, onde o reflexo do Sol, que entrava pela janela, fazia arder em chamas os olhos das drosófilas, que continuavam a voar, sem parar, e a morrer, sem parar.

- Elas estão próximas, vamos dar cabo dessa mosca aqui mesmo.
- Não temos tempo de come-la aqui, vamos enfrentar essas combatentes, se ganharmos, teremos mais comida.
- Impossível, elas voam rápido demais

A drosófila mais rápida do grupo, chega então próximo as formigas, seus olhos espelhados ardem no contato com a luz refletida e intensificada pelo aço inóx, mas ela toma forças, e diz, na sua voz mais grossa:

- Devolvam-na, Oh! formigas carnívoras, não vale a pena brigar por carne tão escassa, não matará sua fome, devolvam-na, precisamos de um ritual religioso para essa companheira que morreu tão cedo, sem ao menos conceber uma ninhada.
- Terá que pegá-la a força, mosca estúpida! - as formigas então começam a correr novamente, mas se vem de frente à um grande abismo escorregadio, da qual não conseguiriam escalar sem deixar a rapitada falecida cair.- Oh! É o nosso fim.

Então o céu se viu lotado de drosófilas, todas voavam, como que em câmera lenta, seus olhos vidrados nas três formigas carnívoras, essas se viam precionadas a pular.

- Jogarei a falecida!
- Mataremos-na!
- Após jogar poderemos escalar e nos salvar, não é companheiras? ...companheiras? - Olhando para os lados, a formiga que carregava a falecida se via sozinha, suas companheiras formigas haviam abandonado-a à pouco, e escalado o abismo em direção à um buraco no azuleijo, que às servia de formigueiro.
- Está sozinha, formiga, devolva a fale... - foi nesse momento que o líder morreu, e os parentes, os coroinhas, e um novo padre (pois o antigo morreu ao socorrer uma drosófila numa poça d'água) vieram prestar apoio.

As drosófilas foram tomadas por um novo líder, que meio sem jeito continuou o que achava que o antigo falaria:

- Cida!
- Cida? - disse a formiga
- Não seja idiota, aqui não tem nenhuma Cida, as drosófilas são chamas por números. Não é povo?
- Éééééh! - todas as drosófilas gritavam ao mesmo tempo levantando as mãozinhas.
- Não! Eu digo... Cida?... Cida o que?
- Oh! Fale-cida.

Formiga e Drosófila começaram a rir compulsivamente, e num descuido da formiga, a falecida caiu do abismo. Feito flechas numa guerra, as drosófilas começaram à voar em direção ao abismo, em formação de guerra, com excessão do líder, que agora ria tremendo no chão, enquanto era devorado pela formiga que parara de rir à um bom tempo.

Todas as drosófilas estendiam as mãos em direção da falecida, e algumas faleceram de hipertensão nessa hora, a imagem era coisa de filme, feito tres mil Harry Potter's em quase-alcance do pomo-de-ouro numa partida de quadribol.

A drosófila mais ousada tocou a perninha da falecida e a de traz tocou a perninha da mais ousada, e por assim foi, até chegar na ultima, numa grande corrente, todas se puxaram e começaram a gritar e a voar loucamente pelo céu, dando vivas e mais vivas no ar, voltando à banana-palanque para terminar o enterro. No momento do quase-enterro, ouve-se uma voz de dentro do caixão-banana.

- Oi? - era a falecida
- Mas... - coletivo
- Ah! porque estou sendo enterrada, estava tirando um cochilo.
- Essa não, nem vem, perdeu, esse enterro sai hoje - disse o padre com muita raiva momentos antes de comer a cabeça da passada-atual-falecida e ser honrado com aplausos, 'bravo', e uma medalha de honra ao mérito.

Nunca tente entender as drosófilas*.



[ esse texto é meu e quem copiar e ganhar muito dinheiro, é bobo e sem criatividade ]


Vocabulário:

* Drosófilas : moscas de banana

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Porco e Pimenta : Berenice


Berenice
[ao lado, o desenho no qual eu cheguei mais próximo de representa-la ]


- Por favor, passe o sal?
Foi Berenice quem falava no almoço de domingo com a família, e tinha certeza que um pouco de sal iria bem no suco-de-beterraba que bebia. Então a familia começou a se movimentar em pró do pedido, de primo pra tia, de tia pra tia, de tia pra avó, da avó pro irmão, que passou pra Berenice.
- Obrigada - seguido de um d'nada coletivo.
A menina, com sutileza, bateu a bundinha do saleiro na mesa fazendo um barulho seco e curto, que não atrapalhou a faladeira da família, e com mais sutileza, colocava calmamente as pitadas de sal no suco de cor roxa.
O frango, numa posição constragedora sobre a bandeija de prata, soltava fumaça, lhe faltavam as coxas e a cabeça, e o peito estava dilacerado também, os assassinos comiam calmamente, escutando agora uma história que o avô contava, com cara de orgulhoso, sobre uma guerra que participara anos atrás, quando a TV ainda não tinha cores, talvez nem TV existisse na época.
- Você põe sabão ou cândida?
Foram as palavras que Berenice captou no ar, tinha certeza que quem dissera fora a tia Prímula, que usava um laço pérola na cabeça, enfeitando seus longos cabelos loiros e bem cuidados, que faziam ressaltar seus olhos redondos e seu nariz-batata, ela estava usando o celular, prata e fino, que combinava com todos os seus quatro anéis, que enriqueciam seus quatro dedos, deixando o anelar pelado, de longe via-se que a tia Prímula não era casada, nem noivada, o que não era problema aos olhos de Berenice, mas em contrapartida, causava burburinho na parte velha da família.
Berenice agora parou de confabular sobre a solteirona, e olhava seu reflexo numa colher que acabara de lamber (o ato deixara sua lingua com sabor de molho rosé), a menina conseguia distinguir seu cabelo castanho, em coque, e seus olhos pareciam enormemente grandes, e suas bochechas, que outrora foram magras e sardentas, agora estavam gordas, tortas e manchadas, no reflexo, sua boca estava pequena demais e seu queixo estreito demais, Berenice teve medo de não reconhece-la mais após ter visto imagem tão bizarra de sua face, então, de supetão, jogou a colher longe, insutileza da parte dela, a colher bateu com força na parede e depois caiu no chão, com um barulho agudo.
Berenice estava de pé, e tentava ao máximo achar um lugar pra se esconder, a familia inteira estava boqueaberta, a tia Prímula desligara o celular, alegando estar ocupada, o avô estava paralisado, com uma parte do frango assassinado ainda na entrada de sua boca murcha, ainda não mordia a prova do crime.
- Berenice? Berenice?! - perguntara e gritara a mãe da menina, respectivamente. - O que foi isso?
A mesa estava em silencio, e Berenice escondia o rosto com as mãos, suas unhas roidas e mal pintadas de lilás ofuscavam os olhos, que virados à garota, pareciam estátuas. Berenice estava linda do seu jeito, usava um vestido com alguns detalhes de flores-do-campo, e uma sapatilha, seu cabelo, em coque, era castanho, seu rosto era pintado com pequenas sardinhas, seus lábios pareciam dois filetes de tinta vermelho-carmim, distanciados, mostrando uma cara digna de susto, ou medo, seus olhos redondos e castanhos eram tapados pelas mãos.
- Me desculpem - ela falava desafinando - é que eu vi uma coisa feia ali dentro.
- Dentro da onde, Bê? - o primo mais novo perguntou, esperando uma resposta como: no báu-da-morte.
- Dentro da colher que joguei, oras pipocas!
O primo parecia aliviado e decepcionado, ao mesmo tempo, e a familia continuava sem saber o que dizer. Berenice então voltou ao seu lugar, e a familia resolveu que, o silêncio, era a melhor forma de apurar o fato. Mais algumas conversas, e as pessoas que davam as ultimas garfadas iam subindo as escadas, que levavam pro andar superior da casa, e se espalhavam pelo mundo, para que no próximo domingo pudessem se juntar novamente.
Berenice, naquele dia, espetou a ultima azeitona com muita dificuldade, e comeu-a, o prato agora vazio foi levado à pia pela menina, e deixado sob a pilha de louça, Berenice então resolveu que era hora de subir as escadas.
No andar superior Berenice não achou nada de interessante, a não ser o bidê, mas esse esrava sendo usado pelo primo Esteves, que lavava o pé numa posição curvada, o outro pé, que ja tinha sido ensaboado e enxaguado estava sustentando o corpo inteiro, numa toalha azul no chão.
- Hey! Berenice.
- Olá, Esteves, como vai a unha encravada? Berenice tinha o dom de fazer as perguntas mais incovinientes.
- Ah! - o primo Esteves olhou para o próprio pé, no bidê, e se deparou com a unha do dedão, inchado e roxo - Está melhorando.
Berenice sabia que estava tão ruim, que o primo já havia se questionado em amputar o dedo, talvez a perna inteira.
- Bom - ele continuou, agora sorrindo, e quase que por vingança, perguntou, inocentemente - Que cena foi aquela, no almoço?
- Foi só uma imagem feia que eu vi - Ela agora se balançava no próprio pé, e sentindo-se na obrigação de se explicar melhor, disse, meio rouca - Na colher, sabe?
- Você é doida, Bê.
Aquelas palavras saindo da boca de um menino prestes a amputar o corpo por causa da unha soaram pior do que se o proprio Papa viesse pessoalmente e falasse a mesma coisa."Você é doida", talvez seja essa a frase que Berenice mais ouvira na vida, no dia que cantou 'macarena' no velório da tia Domingas, falecida tia Domingas, na tarde em que ela montou uma peça, onde os atores eram espiritos tetraplégicos, ou então em todas as vezes que ela jurou escutar uma música que ninguem estava escutando.


[ ainda não escrevi uma continuação, mas terá ]